...da forma mais inesperada...

Domingo, 20 de Abril de 2008

Tenho a dizer que fiquei extremamente triste quando vi no outro dia, num programa de televisão,  que o clube de futebol da minha santa terrinha nao está sequer na terceira divisão. Pois é. Quer dizer, eu não percebo lá assim muito de futebol, mas deduzo que a 4ª ou 5ª divisão não é um sítio onde estejam propriamente as grandes equipas.

 

O campo de futebol da minha aldeia não tem um relvado magnifico(queriam!), é antes sim, um terreiro autêntico, com duas balizas na extremidade, um par de bancadas para os adeptos e um barzinho de gosto muito duvidoso, onde se vendem copos de vinho e se comem tremoços. Mas verdade seja dita, que sinto saudades desse local,que era onde costumava fazer o magusto quando andava na escola primária, onde subia a todas as árvores e mais algumas, onde comia o lanche mais elaborado que a minha mãe me mandava nessas ocasiões e onde me estafava a correr e a saltar o dia inteiro, para depois chegar a casa a parecer um carvão, toda suja da fuligem que as castanhas assadas nos deixavam nas mãos. "Ai filha, só se te vêem os olhos e os dentes!", dizia a minha mãe mal eu entrava porta adentro com o cestinho de verga onde tinha levado o lanchinho. Também era essa o local onde, mais tarde, aos domingos, costumava encontrar os amigos e depois dali seguiamos para o cafezinho da terra mais em voga no momento, para passar a tarde inteira sentada a dar á palheta com o pessoal. Quantas saudades!!!! Agora (deduzo eu) as raparigas da nova geração da minha aldeia já não fazem magustos no campo de futebol da terra, já não vão ao futebol aos domingos á tarde. Passam os dias na internet. No meu tempo não havia essas modernices. Nem telemoveis, quanto mais internet. Nem me passava pela cabecinha o que seria isso. Quando era mais nova, lembro me que podia ficar a brincar na rua com os amigos até se fazer de noite, os nossos pais mesmo que não soubessem ao certo onde estavamos, sabiam que estavamos bem e não tinhamos horas para isto ou para aquilo, exepto as de ir para casa na hora do jantar. Eram dias felizes.

 

A minha aldeia é uma aldeia tipicamente beirã, com muitas casas ainda em granito, com a sua estrada principal e metade das suas ruas feitas em paralelepípedos, que nos faz dar solavancos brutais quando vamos de carro e onde ficamos muitas vezes com os saltos dos sapatos presos. É uma terra onde toda a gente se conhece e se trata pelas alcunhas: é onde toda a gente conhece o Cocas! (Cocas, um beijinho grande para ti se algum dia leres isto!).É uma terra onde as pessoas vestem ainda as melhores roupas para ir á missa de domingo.É uma terra onde no verão se sentam as pessoas á porta e ficam até altas horas a cuscar com os vizinhos. É uma terra em que na Primavera apetece dar longos passeios pelo campo, por aqueles sítios que só as pessoas de lá conhecem e de onde se podem ver os campos floridos e um riacho correndo aqui e ali.É onde se cantam as Janeiras de porta em porta até altas horas da manhã, aquecendo as noites frias com umas garrafas de bebida; é onde no Carnaval se vai "enfarinhar" as raparigas e depois se faz uma festa; é onde no dia a seguir á Páscoa se "vai comer o chouriço" para  campo com os amigos; é onde no dia 1 de Maio se junta o pessoal e vai para algum lado passar um dia diferente; é onde a festa da aldeia, no segundo fim de semana de Maio ainda é o acontecimento mais importante e onde toda a gente se junta á noite para o bailarico; é onde se comemora o S. Joao e o S. Pedro da forma mais engraçada que conheço; é onde na altura do Natal se acende o madeiro junto ao adro da igreja e acontecem as peripécias mais incriveis e finalmente é onde se faz, anualmente, um jantar de convívio de toda uma geração, que acaba sempre em bebedeira. É assim a minha terra... Onde nada acontece e o tempo pareçe não passar. Pouco ou nada mudou desde que saí de lá. O sino da igreja continua a dar as horas erradas, os cafés continuam os mesmos(um pouquinho démode, convenhamos), as tradições apesar de já não serem o que eram, ainda vão sobrevivendo,as pessoas continuam a sentar se ás portas mal espreita o calor, os Correios continuam a funcionar só da parte da tarde e abriu para lá uma casa de meninas. Uau! Ok, isto não abona muito a favor da minha terra, mas tem que se referir.Faz parte dos avanços culturais. 

 E sabem? Apesar de dizer que vim de "cascos de rolha", é lá que estão as minhas melhores recordações, é lá que estão as minhas raízes ("eu nasci na beira, sou mulher pequena de faces rosadas bem rija e morena" lá ri lá lá lá) e é lá que encontro sempre alguma paz e serenidade quando preciso. É naquela aldeia, algures entre a Serra da Gardunha e a da Estrela, que me consigo encontrar sempre que me sinto perdida. E é para lá que fujo quando preciso de consolo e carinho, pois sei que por muito longe que esteja, por muita que seja a distância que me separa, é ela que tenho sempre no coração e é lá que encontro sempre braços abertos para me receberem.

 

PS: o devaneio dominical deu me para a nostalgia.

 

 

publicado por Carlita às 17:03

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